Em Autonomia
Dizem que é de pequenino que se torce o pepino, e que burro velho não aprende línguas. Também dizem que o Tróia Sagres é para ser feito em BTT e antes do Natal.
O percurso em si é simples e com pouca altimetria, mas para completar os 199 km de ligam Tróia a Sagres em Dezembro é preciso rolar com uma média de 21 km/h – é que durante o solstício de inverno apenas temos 9,5 horas de sol – e isto sem paragens, porque se pararmos durante 2 horas na totalidade do percurso, a média sobe para os 27 km/h.
Para um fininha, não é muito difícil, mas para as pesadas BTT a história é diferente. Especialmente com chuva, vento e alforges. Então começámos a nossa aventura às 5:30, duas horas antes do nascer do sol. A esta hora ainda não há ferry de Setúbal, pelo que atravessamos no dia anterior e pernoitamos na Comporta, que foi o nosso ponto de partida.
Chegando a Sagres, iríamos ficar 2 noites no camping, para na segunda-feira seguinte continuar a pedalar até Lagos, onde viríamos a apanhar o comboio de regresso, já sem enchente de ciclistas.
Consequentemente, levamos alguma bagagem – um par de alforges e uma mochila. Com este setup tínhamos espaço para uma muda extra de roupa para cada, chinelos, items de casa de banho, toalha, roupa quente e ainda para os impermeáveis (casaco e calças).
Os alforges foram montados na fininha da Alex, com um Thule Pack’n’Pedal, e eu levei a mochila às costas na Spark 950.
O problema com a chuva são os impermeáveis, que nos fazem aquecer e suar bastante – e a parte difícil é o constante veste e despe para controlar a humidade corporal e evitar constipações, ou pior.
Track disponível para download aqui.
Percurso Mítico
A estrada é boa na sua maioria, tem pouco trânsito, vistas fenomenais e descidas que nos deixam mosquitos nos dentes de tanto sorrir. Rasgar o vento de sul, já com cheiro a mar, entre as árvores que delineiam a estrada e nos conduzem ao último pedaço de terra em Portugal continental é uma experiência avassaladora que me encheu de alegria.
A subida para Santiago do Cacém é longa, mas supera-se bem. Dali até VN Milfontes serpentea-se a serra, e vamos descendo até começar a avistar o Atlântico. A ponte sobre o rio Mira é paragem obrigatória para uma fotografia e marca o ponto médio do percurso – do outro lado da ponte já falta menos de metade!
Chegando a Odeceixe temos à nossa frente a subida mais dura de todo o percurso – com uma pendente máxima de 15% – que depois nos dará descanso até Aljezur, com bastantes quilómetros de planalto que terminam em descida até à antiga povoação.
Não muito adiante, pedalamos pela Bordeira, e pela Carrapateira, e as suas magníficas praias. Daqui em diante a sensação é de superação, e que Sagres vai estar ao virar da próxima curva, mas tarda em se fazer ver. Mas é apenas quando entramos em Vila de Bispo que conseguimos vislumbrar o ponto onde a Europa acaba – os ânimos rejuvenescem, as dores desaparecem, a adrenalina sobe e o sprint final começa, em contra-relógio contra o vento que teima em nos empurrar de volta para norte. Trocamos constantemente de lugar, fazendo turnos a cortar o vento na frente, aguentando ao máximo o ácido lácteo que se forma nas nossas pernas até passar novamente a vez e descansar por alguns breves instantes até voltar a tomar a posição frontal. Afinal de contas, somos apenas dois.
Sagres é assim conquistada, em modo de persistência resiliente, por este casal que teimou em pedalar rumo a sul num fim de semana que se recusou a dar tréguas à chuva.
E se assim não fosse, não teria sabido tão bem chegar a Sagres naquele dia.
SCOTT SPARK 950

Roda 29″ de suspensão total, com forqueta FOX e amortecedor DT SWISS. Rodas Mavic com pneus WTB Slick 2.0 e guiador sobrelevado.
LEV

Roda 700C com pneus 23, quadro em alumínio e guiador plano. Rodas Mavic e pneus BTWIN Resist. Construída com 90% de componentes usados.
Nas Calmas
Como em qualquer boa aventura a pedal desta envergadura, o plano inicial é apenas uma sugestão. Foi em São Teotónio, numa paragem para comida, que percebemos que não iríamos conseguir chegar a Sagres de dia. A chuva continuava a cair incansavelmente, e as nossas mitocôndrias já não tinham mais energia para dar.
Duas torradas com açúcar por cima, café com fartura e uma muda de roupa interior seca e arrancámos com Aljezur no nosso objetivo – pouco menos de 30 km. Aí pernoitamos, aproveitando todas as condições do alojamento para lavar e secar a roupa.

No dia seguinte ainda chovia, claro. Mas de Sagres separam-nos cerca de 50 km, e com algumas dores pedalamos rumo ao camping, com um misto de abertas, onde finalmente vimos o sol, e chuvadas torrenciais que vinham sem aviso. Foi duro. Foi épico. Foi fenomenal.
No camping em Sagres há um restaurante que tem um hambúrguer vegano delicioso, e a cerveja é sempre fresca. Nem notámos o sabor a palha das batatas fritas congeladas, tal era a fadiga de comer barras energéticas. As vantagens de viajar em Dezembro num fim de semana chuvoso incluem termos o restaurante por nosso conta – perfeito.

Até Lagos, fomos sempre pela N125, com trânsito, num infindável sobe e desce de colinas que é melhor transposto a dar fruta, e a aproveitar a lei da conservação de energia. Lá nos esperava o comboio, duas horas de sol e um piquenique pirata, com pastelaria local.
O regresso de comboio foi pacífico, sem incidentes e na chegada ao Pragal, voltamos de novo para cima das bicicletas e fomos a pedalar até casa, num regresso triunfante, não fossemos estar já a caminho dos 40 anos e a fazer maluquices destas sem preparação física adequada. Foi um teste ao nosso envelhecer, e passámos no teste – estamos no bom caminho!
Para a próxima será a Estrada Nacional 2.
